Quarta, 13 Dez 2017
ponto de cultura PDF Imprimir E-mail
Escrito por adm   
Seg, 21 de Junho de 2010 23:25
O Ponto de Cultura Olhares de Dentro, promovido pela Associação da Comunidade dos Remanescentes de Quilombo da Fazenda (ACRQF), foi aprovado em 2010, pela Secretaria do Estado da Cultura e o Ministério da Cultura, e desde então, vem promovendo ações de preservação da cultura tradicional do Quilombo da Fazenda e da região de Ubatuba-SP.
A maior parte das atividades acontecem no Centro Comunitário do Quilombo da Fazenda, sede da ACRQF. Semanalmente acontecem inúmeras atividades, onde participam agentes culturais da comunidade e da região, que aos poucos vão tomando contato com a herança cultural ancestral da comunidade e da região, através dos mestres da cultura quilombola e caiçara. A intenção é criar espaços onde os jovens possam vivenciar os saberes dos mestres de diferentes tradições da região, como por exemplo, o Fandango Caiçara, o Jongo, a produção artesanal, a construção de casas de pau a pique e as técnicas agrícolas. A partir dessas vivências conseguimos preservar os espaços de transmissão desses saberes tão comuns no passado e com isso, cada um pode optar pela continuidade de sua própria cultura e história. E fortalecendo com isso, essa juventude que vem crescendo, diante de um cenário completamente diferente e que apresenta inúmeros desafios para continuidade das tradições locais.
Além das ações de preservação da cultura tradicional, ocorrem outras ações que vão se entrelaçando e contribuindo para o fortalecimento da comunidade, o protagonismo juvenil e, consequentemente, o desenvolvimento da autonomia do Quilombo.
- Preservação do Fandango Caiçara:
Não existe um consenso a respeito de suas origens, mas o que se sabe é que o Fandango chegou ao Brasil através das naus portuguesas e encontrou solo fértil em toda a faixa litorânea do sul do Brasil, desde o litoral paranaense até a região sul fluminense, passando por todo litoral paulista. Sendo assim, o Fandango é uma manifestação cultural popular brasileira, fortemente associada ao modo de vida caiçara. A prática do Fandango – ou função – estava ligada aos mutirões de roçados, colheitas, nas puxadas de rede ou na construção de casas e outras benfeitorias, onde o organizador oferecia, como pagamento aos ajudantes voluntários, um fandango com farta comida. Além disso, o Fandango era a principal diversão e momento de encontro dos moradores das comunidades caiçaras, estando presente nas comemorações religiosas, casamentos, etc. Há alguns anos, no Quilombo da Fazenda, o Fandango Caiçara era a principal diversão dos moradores da comunidade. Muito vivo na memoria dos moradores mais antigos da comunidade, sempre que se fala das festas antigas, o Fandango aparece.
Na década de 1970, com a construção da BR 101 (Rio Santos) e a anexação da comunidade ao Parque Estadual da Serra do Mar, os moradores assistiram um processo de desarticulação das suas manifestações tradicionais. Com as leis ambientais, as atividades tradicionais de subsistência, como a pesca e os roçados, foram proibidas. Além disso, as novas doutrinas religiosas fortaleceram esse processo, pois proíbem o “culto de imagens”, os bailes e bebidas alcóolicas, fazendo com que o Fandango permanecesse vivo e pulsante apenas na memória. Sendo assim, a comunidade assistiu nos últimos 40 anos o interrompimento da tradição musical mais forte da região.
Desde o início de 2010, o Ponto de Cultura Olhares de Dentro, vem realizando ações para fomentar a preservação dessa importante manifestação cultural brasileira. Estão sendo realizadas oficinas práticas, onde os jovens da comunidade aprendem com os mestres da comunidade e da região, a construir os instrumentos típicos, as danças e os ritmos, e aos poucos, o Fandango Caiçara está voltando a ser uma manifestação viva na comunidade. Diversas metodologias são utilizadas para aproximação dos jovens dessa manifestação cultural: entrevistas com os mais velhos, oficinas com mestres que tocam e dançam o Fandango, pesquisa a respeito da história do Fandango na comunidade, confecção de máscaras, construção dos instrumentos utilizados (rabeca, viola, machete e caixa do divino), etc.
- Preservação do Jongo:
O Jongo é uma manifestação cultural africana muito antiga, trazida para o Brasil pelos negros escravizados. Também conhecido como Caxambu, o jongo está presente em algumas comunidades da região sudeste brasileira. Originário dos batuques e danças de rodas da tradição Bantu, apresenta–se como dança comunitária de origem rural. Era uma manifestação as vezes tolerada, as vezes proibida e as vezes valorizada pelos seus senhores de escravos, que chegavam a pedir para os escravos fazerem o Jongo, quando visitas importantes chegavam nas fazendas. Para os negros escravizados, o Jongo servia com um meio de comunicação, socialização de informações, combinação de fugas, permanência da identidade e história, diversão, etc. O Jongo prioriza a palavra. Acredita-se que a palavra Jongo quer dizer a palavra como flecha, e daí a importância dos cantos ou pontos, como são chamadas as músicas do Jongo. Sendo assim, o ouvir e o cantar é fundamental no jongo, como na expressão de um jongueiro velho: “o jongo é um dizer e dois entender”. É uma manifestação que também envolve o desafio, onde um jongueiro desafia o outro através dos pontos e o outro jongueiro tem de responder.
Não se sabe ao certo sobre a existência do Jongo no Quilombo da Fazenda, mas é bastante provável que tenha existido, pois a maior parte das fazendas da região, que utilizavam mão-de-obra escrava, tinha o jongo como uma manifestação cultural local. Os moradores mais velhos dizem a respeito de um dos morros que fazem parte da comunidade, chamado Morro do Tambor, de onde se escutava o tambor tocando. A comunidade do Quilombo da Fazenda é formada por famílias descendentes de escravos da antiga Fazenda Picinguaba e por famílias descendentes de escravos de fazendas vizinhas.
Através das ações do Ponto de Cultura Olhares de Dentro, inúmeras ações estão sendo realizadas para fomentar a preservação do Jongo na comunidade. Através dessas ações, os jovens da comunidade estão podendo ampliar seus conhecimentos a respeito dessa importante manifestação cultural, conhecendo a importância dessa herança deixada por seus ancestrais, tomando consciência do valor que o Jongo teve no processo de emancipação do povo negro no Brasil e a importância que essa manifestação desempenha nos dias atuais, como ferramenta de luta das comunidades quilombolas em busca do reconhecimento do valor de sua história, de sua cultura e na conquista do direito de permanecer na terra de seus ancestrais.
Inúmeras ações vem sendo realizados com o objetivo de preservar essa importante manifestação cultural, sendo assim, os jovens vem aprendendo a tocar os tambores e dançar, bem como “puxar pontos” e a história dessa manifestação. Foram realizadas investigações com as famílias que tinham ancestrais jongueiros, investigação a respeito dos pontos de jongo e uma vivência em uma comunidade jongueira, como o caso da Comunidade do Quilombo de Santa Rita do Bracui (Angra dos Reis/RJ).
- Oficinas de Artesanato
Através do Ponto de Cultura Olhares de Dentro, estão sendo realizadas ações de fomento da produção artesanal do Quilombo da Fazenda. Antes da Construção da BR 101 (Rio Santos), praticamente tudo o que era necessário para sobrevivências dos moradores do Quilombo era produzido na própria comunidade, pelas mãos de seus moradores. Com isso, inúmeros saberes foram produzidos e acumulados ao longo desses anos, voltados para a produção de ferramentas, alimentos, utensílios, e outras coisas que garantiram a sobrevivência dos moradores da comunidade e o acumulo de muitos saberes a respeito das fibras, cipós, madeiras da região.
Foram realizadas inúmeras vivências com os artesãos da comunidade e da região, com o propósito de fomentar as praticas tradicionais tanto fortalecendo produções locais como trazendo outras possibilidades de produção utilizando-se das mesmas matérias primas. O forte da comunidade é a produção artesanal com taboa. No passado, a taboa era utilizada para confecção de esteiras que eram utilizadas pra dormir. No presente, essa produção artesanal ganha outra roupagem e utilidade, sendo produzidos balaios, galinhas, peixes, fruteiras, chinelos, chapéus, bolsas e uma série de outras peças.
Paralelamente, o Olhares de Dentro vem realizando outras ações fundamentais para continuidade da produção artesanal, tendo construído, uma Casa de Artesanato Comunitária, ao lado da Casa da Farinha, para venda da produção local de artesanato. Realizamos uma vivência de artesanato, na comunidade do Quilombo do Campinho da Independência (Paraty/RJ), onde os artesãos da Fazenda visitaram e conheceram a produção e a realidade dos artesãos do Campinho. Além disso, outras ações também são importantes para continuidade desses saberes e fazeres, bem como a elaboração de Planos de Manejo pra extração dessas espécies, que em sua maioria são nativas da Mata Atlântica e pelo Parque Estadual da Serra do Mar estar situado dentro dos territórios quilombolas, esses estudos científicos são necessários para que essas atividades não sejam caracterizadas como crimes ambientais, e sim como importantes ações de preservação da cultura e identidade local, reconhecidas, garantidas e apoiadas pelo Estado e como garantia da continuidade de seus moradores em suas terras, já que a produção aparece como uma importante fonte de renda no interior da própria comunidade.
- Preservação das Moradias Tradicionais:
Foram realizadas diversas ações para fomento a transmissão dos saberes ligados a construção das casas. Antes da Construção da BR 101 (Rodovia Rio Santos), o acesso da comunidade as cidades como Ubatuba e Paraty era realizado por meio de trilhas ou por barco. Sendo assim, para construção das casas eram utilizados materiais retirados da mata e a técnica mais utilizada era a do pau a pique. O Quilombo da Fazenda possui ainda casas de pau a pique, mas a história da maior parte dos moradores é a de morar em uma casa de barro e atualmente residir em casa de alvenaria.
Com as proibições impostas pelo PESM, atualmente é bastante difícil construir uma casa de barro, já que não se pode mais retirar madeira para montagem do pau a pique, palha para cobertura das casas e barro para as paredes. Além de enfraquecer esse técnica que possui uma série de características mais apropriadas as condições climáticas da região, através dessas proibições e o abandono dessa prática faz com que seja perdido uma infinidade de saberes a respeito das matérias primas encontradas na Mata Atlântica, saberes que permitem uma retirada sustentável, que estão deixando de ser transmitidos para as gerações mais novas.
Além das proibições realizadas pelas leis ambientais, esse tipo de moradia foi associado a uma determinada condição social, que faz com que muitas pessoas tenham vergonha de morar em uma casa de pau a pique, devido a esse tipo de construção estar associado a pobreza.
Diante de todos esses obstáculos, o Ponto de Cultura tem a intenção de fomentar esse tipo de saber, pois reconhece o valor de toda essa sabedoria, elevar a auto estima desse tipo de construção, revertendo sua aparência de pobreza como símbolo de riqueza, de saberes e fazeres, que permitem com que sejam construídas casas sustentáveis, que não poluem o meio ambiente e tampouco o deterioram. Que possuem uma arquitetura adaptada as condições naturais da região, que permite que sejam frescas no verão e quentes no inverno. E por fim, nosso objetivo foi de dialogar com técnicas de construção em barro mais recentes, que vem sendo pesquisadas pelo Brasil. Foi realizada uma visita ao IPEMA (Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica), com o objetivo de dialogar o conhecimento tradicional com técnicas “modernas” de construção de pau a pique.
Durante inúmeras oficinas realizadas por mestres da construção de casas da comunidade, foi construída uma casa de pau a pique, onde os jovens participaram do processo de colocação do pau a pique, amarração do envaro e embarreamento da casa. A Casa foi construída ao lado da Casa da Farinha, monumento histórico da comunidade, e funcionará como a Casa de Artesanato Comunitária do Quilombo da Fazenda.
- Oficinas de Fotografia, Vídeo e Edição de Vídeo:
Foram realizadas diversas oficinas para que os jovens se apropriem dos meios digitais que a comunidade possui. Atualmente, a comunidade dispõe de um conjunto de equipamentos digitais que permitem com que ela possa produzir autonomamente diversos materiais áudio visuais. Para isso, foram realizadas oficinas para os jovens aprenderem a manusear esses equipamentos. Diversos educadores e instituições parceiras participaram das ações voltadas a inclusão digital na comunidade. Além de um acervo enorme produzido em sua maioria pelos próprios jovens da comunidade, foram produzidos dois vídeos a respeito das lendas da comunidade – esse vídeo está em fase de finalização -, inúmeros registros áudio visuais a respeito dos saberes e fazeres da comunidade e um documentário a respeito do Fandango Caiçara no Quilombo da Fazenda, vídeo disponível pelo link:
- Cinefarinha:
Toda primeira terça feira do mês acontece o Cinefarinha, cinema comunitário, onde são apresentados filmes nacionais e internacionais, produções independentes e outros materiais audiovisuais. A proposta do cinefarinha é ser um espaço aberto voltado para o lazer, para divulgação da produção áudio visual de outras comunidades e o contato com a linguagem do cinema.
 
- Vivência Musical
O objetivo desses encontros é realizar vivências onde os jovens da comunidade possam ter contato com o universo da música. São trabalhados ritmos da cultura popular brasileira, como o maracatu e o coco. Os jovens experimentam diversos instrumentos, muitos deles confeccionados por eles mesmo, e vão se apropriando dos ritmos, cantos e harmonias. A proposta não é de ensinar um instrumento ou um ritmo específico, e sim, introduzir os jovens na música.
- Oficina de Costura para crianças
Os jovens participam dessa atividade que tem como objetivo confeccionar os seus próprios objetos, roupas, indumentárias e brinquedos. Durante as oficinas foram confeccionadas pelos jovens a indumentária para o grupo Ô de Casa, confecção de roupas para bonecos mamulengos, colares de capiá (semente extraída dos quintais dos moradores) para os meninos, flores de fuxico para enfeitar os cabelos das meninas, os colares das meninas na técnica do macramê e a confecção de bonecos e bonecas.
 

Ações entre Pontos:
 
Ações entre Pontos:
 
Foram realizadas inúmeras ações entre Pontos de Cultura do Estado de São Paulo e da região. Entre eles é possível destacar:
- Oficina de Confecção de Bonecos Mamulengos:
Recebemos Rogério amorim Ponto de Cultura ARCA  - (Ribeirão Pires), que durante alguns dias realizou uma oficina de confecção de bonecos mamulengos para os jovens da comunidade. Durante esses dias foram construidos bonecões com caixa de papelão, jornal e cola.  Além da confecção de bonecos foram realizadas vivências musicais,  jogos e brincadeiras, que envolveram muito os jovens da comunidade  e que geraram frotos que estão sendo colhidos até os dias atuais.
- Tenda Afro Lúdica:
Recebemos o Ponto de Cultura Ilu Oná Caminhos do Tambor com a ação cultural: Tenda Afro Lúdica. A Tenda Afro Lúdica faz parte das ações previstas pelo Ponto de Cultura Ilu Oná. Recebemos oito educadoras do Ilú, que realizaram com os jovens e crianças do Quilombo diversas atividades educativas de valorização da cultura negra.
Entre elas, aconteceram: jogos africanos, pintura facial de algumas regiões da África, filmes voltados para questão racial e outros, confecção de bonecas negras – que contou com a presença das mães das crianças – musicalização, árvore genealógica, contação de historias e além de danças.O evento marcou a comunidade, principalmente as crianças que na sua maioria nunca haviam participado de um evento tão especifico para elas. Além disso, a presença do Ilu no Quilombo foi importante para fortalecermos as ações educativas do Olhares de Dentro e as trocas entre Pontos de Cultura.
- Produção do Documentário “O Fandango Caiçara no Quilombo da Fazenda”
Outra parceria que estabelecemos foi com o Tuxaua Associação Nhandeva, para a realização de um documentário sobre o Fandango Caiçara na comunidade, através de dois dos membros dessa associação, Roque Gonzalez e Patricia Solari. Roque e Patricia são parceiros antigos da comunidade, auxiliando sempre que possível nas atividades que desenvolvemos. Esse ano, através de seu projeto, foi possível estabelecer essa parceria entre os jovens do Ponto de Cultura ITAE (Instituto de Trilhas de Arte e Educação) de Paraty (RJ) e os jovens do Ponto de Cultura Olhares de Dentro. Eles realizaram toda a produção do documentário, desde a captação das entrevistas, as entrevistas em si, a elaboração das perguntas e a edição do material. O documentário está disponível no link
 
- 5º Festival de Música de Tarituba:
O Festival realizado pela comunidade de Tarituba e pelo Ponto de Cultura Escola Ciranda de Tarituba, na região norte de Paraty (RJ), teve a participação do Ponto de Cultura Olhares de Dentro através de duas ações. O grupo Ô de Casa, grupo de jovens da comunidade, formado a partir das ações do Olhares de Dentro, apresentou o Fandango Caiçara e o Jongo e os educadores do Ponto, realizaram oficinas de confecção de rabecas e caixa do divino, abertas para os participantes da festa.
- Festa do Quilombo Cambury:
O grupo Ô de Casa apresentou-se durante a Festa do Quilombo do Cambury, promovida pelo Ponto de Cultura Escolinha Jambeiro (Ubatuba/SP) e pela Associação da Comunidade dos Remanescentes de Quilombo do Cambury. O grupo apresentou o Fandango, o Jongo e um cortejo de Maracatu que animou a festa! Além disso, houve corrida de canoa, apresentação das danças das crianças do Cambury, a Cia. Circo teatro Aries Marioto e os Coroas Cirandeiros de Paraty.

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Foto tirada durante o Encontro do Olhares de Dentro para a

contrução coletiva da página do Quilombo na internet.

Na foto Graziele Braga.

"Tenho orgulho de ser quilombola e ser um agente cultural, porque vivo disso e isso faz parte de mim!”

Cristiano Braga

 

 


Última atualização em Seg, 17 de Dezembro de 2012 14:39